Open/Close Menu Site da Dra. Carolina Ambrogini, Ginecologista e Obstetra em São Paulo - SP, Especialista em Saúde Feminina e Sexualidade, consultório na Vila Olímpia.

 

 

  • A história da sexualidade feminina

  A sexualidade da mulher sempre foi envolta por maior preconceito devido às questões históricas de submissão e inferioridade em relação ao homem. Considerava-se que a mulher possuía papel passivo durante o ato sexual, ignorando-se sua capacidade para sentir prazer. Até mesmo Freud priorizava o falo, tendo o sexo masculino como ‘modelo’. Com as mudanças socioculturais do século XX e a descoberta da pílula anticoncepcional, a mulher foi adquirindo papel cada vez mais importante na economia e nas relações inter-pessoais , conquistando independência financeira e liberdade sexual. Assim, a sexualidade feminina vem sendo cada vez mais estudada e compreendida, levando-se em consideração suas particularidades .

 

  • Ensinamento sobre sexualidade

No entanto, apesar de hoje se falar sobre sexo de forma mais aberta, muitos mitos e tabus ainda permanecem, talvez porque existam falhas na educação sexual, provavelmente ocasionadas porque ainda continuamos com vergonha de conversar livremente sobre sexo. As informações permanecem sendo passadas de forma velada ou escancaradamente teatrais como nos filmes eróticos e ainda de maneira temerosa nas palestras de DSTs e contracepção do ensino médio, perpetuando e até criando novos mitos. É importante os desconstruirmos, já que, em sua maioria, são carregados de preconceitos e generalizam comportamentos sexuais que são, na verdade, muito individuais e particulares.   

 

  • A sexualidade da mulher é muito mais complexa

Muito se fala que a sexualidade da mulher é complexa e que depende de uma lista interminável de fatores. Ela precisa estar bem consigo mesma, descansada, com a testosterona em ordem, feliz no relacionamento e com os filhos dormindo saudáveis  para encarar uma relação sexual. Ora, mas e para eles também não? Se ela é complexa para as mulheres também o é para os homens, talvez ainda mais para estes que precisam ter uma ereção. Porém, as mulheres tem gatilhos diferentes, não são tão visuais e diretas como os homens. A libido feminina se acende é com a sedução, algo que deixa de acontecer quando o relacionamento se torna estável, ou por preguiça ou pela sensação que a estabilidade dá de que não é mais necessária a conquista.

 

  • Mulher não gosta de pornografia

 Outro mito que permanece é de que mulher não gosta de pornografia. Pois elas gostam sim. Vários estudos já comprovaram isto, a trilogia dos Cinquenta Tons de Cinza é um bom exemplo. O tipo de pornografia é que talvez seja diferente. Enquanto eles se atém às imagens, elas gostam do sexo que acontece após um enredo, de novo a sedução atiçando o desejo feminino. Este nicho de mercado foi descoberto nos últimos anos, quando novas diretoras mulheres passaram a produzir um pornô soft, com história, interação entre os personagens e com menos foco nos genitais. Desta forma, a mulher passou a consumir mais pornografia, bem como se fidelizaram às sex shops, principalmente às on-lines onde a gama de produtos voltados para as mulheres é mais da metade do total oferecido e ainda elas podem comprar com garantia de anonimato. A variedade de vibradores que atualmente se encontram no mercado é enorme, semelhante a uma loja de sapatos femininos, com diversos tamanhos e tipos para todos os gostos. Isto mostra que o público feminino é um grande consumidor desta fatia de mercado.

 

  • Mulher não transa durante a TPM

 Muito enfoque se dá aos hormônios e suas influências na sexualidade da mulher. É sabido, através de pesquisas que realmente a libido pode flutuar de acordo com o ciclo menstrual, sendo maior após a menstruação e menor antes desta, na fase da TPM. Também ouvimos muito que a libido cai na gestação e após a menopausa. A TPM, a gravidez e a menopausa são períodos em que a mulher está sujeita à diversos sintomas que podem atrapalhar a sua qualidade de vida e realmente quem tem o seu bem estar reduzido sente menos vontade de se relacionar sexualmente, mas nem sempre isto acontece. A mulher que está de TPM se for conquistada com muito carinho e chocolate pode sim sentir-se predisposta ao sexo, até porque as endorfinas liberadas são um bálsamo para a TPM.

 

  • Mulher grávida não tem desejo sexual

 A grávida, por sua vez, apesar de ter a progesterona influenciando negativamente o desejo sexual, tem a vulva hipervascularizada, podendo se excitar mais facilmente e obter orgasmos mais intensos, um super estímulo que alimenta a libido.

 

  • A vida sexual da mulher acaba após a menopausa

A muher menopausada, por sua vez, tendo os sintomas climatéricos amenizados, pode vivenciar uma extraordinária fase na sua vida sexual, onde não há mais crianças pequenas para cuidar, nenhuma preocupação com gravidez, onde sobra mais tempo para viajar com o parceiro ou para viver a própria vida como bem quer. A maturidade traz mais vivências sexuais, mais segurança do que se gosta e maior liberdade sexual.  Um estudo australiano prospectivo acompanhou alguns casais por 8 anos, de modo que estes foram avaliados com relação a sexualidade, antes e depois da menopausa das mulheres. Os resultados mostraram que a menopausa teve impacto negativo apenas na sexualidade dos casais que já apresentavam alguma disfunção sexual prévia ao climatério. Ao invés dos hormônios, o fator mais impactante na sexualidade feminina é o sexo mecânico e carente de novidades dos relacionamentos estáveis.

 

  • Excitação feminina

E o que dizer sobre a famosa frase : “enquanto o homem é um fogão elétrico, a mulher é um fogão de lenha”? A velocidade da excitação masculina comparada à feminina é muitas vezes bem diferente. Enquanto o homem inicia mais pré-disposto na relação sexual, a mulher geralmente começa mais pela vontade de experimentar uma  intimidade emocional com o parceiro, do que pelo desejo propriamente dito e este aparece (ou não) depois das famosas preliminares.

É o chamado desejo responsivo que a pesquisadora canadense Rosemary Basson identificou, reformulando o ciclo de resposta sexual da mulher do tradicional ciclo proposto na década de 50 por Masters e Johnson.

 Basson nos diz que 80% das mulheres nos relacionamentos estáveis vivenciam o desejo responsivo em contrapartida ao desejo espontâneo, este, estaria presente apenas lá no início, na fase de paixão e conquista. Depois deste momento, as mulheres entram numa neutralidade sexual, quando pensam muito pouco em sexo. Provavelmente, isto também acontece porque não estão habituadas a erotizar suas mentes como os homens, que desde cedo são incentivados a procurar estímulos que alimentam o seu desejo sexual.

 

  • O desejo sexual da mulher deve aparecer espontâneamente

As mulheres não sabem como procurar estes estímulos, não sabem reconhecê-los quando aparecem e passam a vida esperando o desejo sexual “brotar” passivamente em suas mentes ocupadas com diversos outros assuntos da tal vida moderna. Isto gera um outro mito, o de que o desejo sexual vem espontaneamente. Ele vem sim, mas depois de se aprender a estimulá-lo,  tornando corpo e mente sensíveis aos sinais. Uma mulher que entra numa relação sexual com vontade, se excita tão rapidamente quanto um homem. Alguns estudos que usam cápsulas vaginais com sensores e ressonância magnética funcional cerebral, verificaram que o tempo que a vagina leva para responder depois que uma área da excitação é ativada no cérebro são de incríveis 10 segundos, ou seja, está mais para micro-ondas do que para forno a lenha.

 

  • Autoconhecimento

Uma questão relevante é que o desconhecimento feminino sobre a própria sexualidade é tão grande que elas não conseguem se perceber excitadas, muitas nem sabem que a lubrificação vaginal é resultado de um processo de excitação.

Portanto, não sabem procurar estímulos para o seu desejo sexual, não se reconhecem excitadas, muitas não sabem suas zonas erógenas e delegam o seu prazer para que os parceiro as conduzam ao clímax, que muitas vezes não chega, gerando frustração e uma ideia de que o sexo é chato, desestimulando a libido.

Este ciclo vicioso do desprazer é o que leva à maioria das disfunções sexuais femininas. Cerca de  20-30% das mulheres se queixam de baixa libido e anorgasmia e 10-15% delas referem dor na penetração, segundo estudos populacionais. É uma estatística relativamente alta, mas que poderia ser em grande parte revertida com propostas de educação sexual para ambos os sexos.

 

  • Projetos sobre sexualidade

No Projeto Afrodite- centro de sexualidade feminina do Departamento de Ginecologia da UNIFESP- a etapa inicial do atendimento às mulheres e casais que procuram o serviço é a de uma palestra com informações básicas sobre sexualidade. Ainda assim, após a consulta de triagem, algumas mulheres são direcionadas para um grupo terapêutico de oito sessões cujo foco principal é o de se aprofundar nas orientações sobre sexualidade e esclarecer os diversos mitos e tabus que envolvem o assunto.

  Nos outros grupos terapêuticos e nos atendimentos individuais realizados pela equipe multidisciplinar, o trabalho educativo é sempre reforçado, dando autonomia para a mulher poder fazer as suas próprias escolhas dentro dos diversos aspectos da sua sexualidade. Desta forma, ela será capaz de sair do papel passivo que sempre exerceu durante séculos, para assumir um lugar de protagonista da sua vida sexual.

 

2020 © Carolina Ambrogini

Website gerenciado por Meu Consultório Digital

Siga-me nas redes sociais
InstagramWhatsApp