Open/Close Menu Site da Dra. Carolina Ambrogini, Ginecologista e Obstetra em São Paulo - SP, Especialista em Saúde Feminina e Sexualidade, consultório na Vila Olímpia.

   Toda família tem alguém meio diferente, mais ousado e que sai um pouco do “padrão”. Na minha esta figura era meu querido tio avô, tio Antônio. Morava em Goiânia e ele em Brasília e sempre que nos encontrávamos era uma festa! Simplesmente o adorava. Ele não  era casado, não tinha filhos e levava uma vida sem regras, aproveitando o máximo de tudo. Até que teve câncer e resolveu virar monge beneditino indo morar no Mosteiro de São Bento (“chiquérrimo”, como dizia ele), mesmo assim não perdeu a graça e a alegria de viver.
   Meu tio era catedrático em letras da UNB (Universidade de Brasília), falava várias línguas e adorava nos ensinar palavras diferentes como “nauseabúndico”, essa eu nunca esqueci. Sabe aquelas memórias de infância que parecem um presente? Ele se enquadra bem nesta categoria, junto com o bolo de chocolate da minha avó.
   Tudo isto pra falar que ele uma vez me mostrou um saquinho de feltro que ficava sempre na sua carteira e continha uma mecha do cabelo de Clarice Lispector. Na época, eu não entendi o porquê do meu tio andar com uma mecha de cabelo de alguém que já tinha morrido dentro da carteira, mas como ele era excêntrico, nem questionei…
   Ontem acabei de ler a biografia de Clarice Lispector, de Benjamim Moser e entendi perfeitamente porque tio Antônio andava com um pedacinho dela sempre junto de si ( nem sei se era mesmo o cabelo de Clarice porque ela morreu muito sozinha e com poucos amigos, mas como era uma lenda, pode até ser verdade). Eu queria aquele saquinho pra mim!! Como foi difícil acabar o livro e me despedir dela…
   Já havia lido Clarice no colégio. Lembro que o seu último livro, A hora da estrela, caiu no vestibular, mas depois nunca me interessei muito. Achava que ela fazia parte daqueles autores brasileiros obrigatórios, como Machado de Assis que, na época, eu achava meio chato. Até que me interessei por um livro de contos dela chamado Clarice de cabeceira, em que alguns de seus contos são apresentados por  pessoas como Caetano Veloso ( que era apaixonado por ela) e Diogo Mainardi. Simplesmente estou obcecada por ela!
Diva, Deusa, Lenda , Mito! Beijaria seus pés se ainda fosse viva e já até pensei em levar flores no  seu túmulo (!).
   Sou uma leitora compulsiva desde que tinha doze anos e meu pai me deu um livro infanto-juvenil da Condessa de Segúr. Não sei o que é ficar sem um livro na cabeceira da cama e sempre que termino um (principalmente os bons) fico me sentindo meio órfã, meio triste e já me apego em outro. Adoro livrarias!
Já li de tudo, mas quase nunca reli um livro. Achava que perdia a graça…E não é que terminei Clarice de cabeceira emendei a biografia do Moser e estou relendo o primeiro?
   Pelo que li da biografia, entendi que nem tudo de Clarice é lível (inventei esta palavra?). Seus livros são muito complexos e talvez existencialistas e enigmáticos demais pra mim, mas seus contos e crônicas…quero ler tudo! Ninguém como ela sabe retratar com profundidade e leveza o cotidiano, a vida simples, pequenas emoções e percepções diárias. Só ela domina a escrita de uma forma tão perfeita. Quem lê a biografia percebe que ela era singular, que tinha uma sensibilidade diferente sobre as coisas e que no fundo era apenas uma garotinha assustada e que inventava estórias na tentativa de salvar a sua mãe da morte ( a mãe de Clarice sofria de sífilis que contraiu após ser estuprada por pessoas que perseguiam os judeus na Ucrânia e morreu quando ela era criança).
 Para quem está sem-livro e precisando de uma indicação recomendo muito a biografia Clarice. Eu já sei o que vou ler nos próximos meses. E depois acho que vou voltar pro Machado de Assis. Afinal, ninguém é lenda à toa.

2020 © Carolina Ambrogini

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